Vozes sem palavras

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Vozes Sem Palavras é um álbum digital coletivo, realizado a partir da segunda chamada do SONatório para o projeto #desafios_sonoros. A matéria-prima deste álbum são vozes, vozes sem palavras, vozes cruas, enfeitadas, sopradas, aspiradas, espaçadas, cheias, secas, molhadas.

Iniciamos nosso percurso vocal – Vozes Sem Palavras – explorando a ressonância da voz dentro da boca de Inés Terra; passamos por camadas de vibração vocal do pescoço e de vozes invertidas de Lori Yonï; seguimos por resíduos sonoros de Antônio Cândido manipulados por Vinícius Fernandes e flutuamos na voz esvaziada e lo-fi de Daniele Costa. Escorregamos para a voz caótica e gritante de Joanne Labixa; seguimos pela liberação e vocalização de sensações de Jalala Amani; passamos por uma voz transfigurada em obturação de Júlia Teles; atravessamos as cicatrizes vocais de Dani Sou; exploramos os ecos, ressonâncias e processamentos vocais do projeto Guache e finalizamos essa trajetória vocal nos deslocando para dentro de um jogo de tarô com oito vozes, cada uma com seus próprios destinos, da rede Sonora – músicas e feminismos.

 

Sobre os Processos Criativos das faixas

Inboca (Inés Terra)

INBOCA é a ressonância de dentro da boca quando respiro. O ponto de partida para essa peça/gravação foi a tentativa de captar a ressonância de certos sons antes destes se projetarem no espaço; explorar o espaço acústico da boca com sons minúsculos, surdos, e outros sons inesperados. Gravei algumas improvisações a partir da respiração com um microfone condenser pequeno dentro da boca. Vozes sem palavras onde os articuladores se encontram bloqueados, anulados pelo microfone. Por Inés Terra

Equipamento/softwares/materiais utilizados para a criação: Para essa gravação foi utilizado o programa ableton live 9, em um computador mac com uma placa de audio Presonus e um mic condenser da audio-técnica.

Ficha técnica | Vozes, gravação, edição, mixagem: Inés Terra.

Garganta [solovox] (Lori Yonï)

LORI YONÏ é um projeto solo de Leandra Lambert, que realiza todo o processo de produção. As composições se iniciam com a voz livre, sem preocupação com a linguagem. Busca experiências xamânicas e transformadoras usando o canto e outras possibilidades vocais, a eletrônica e tecnologias diversas, loops e drones, livre improviso e programação. Garganta (solovox) surge de gravações experimentando três diferentes microfones em contato direto com a pele do pescoço, captando timbres de canto pré-cordas vocais, com uma sonoridade subterrânea, somando-se, em camadas, a trechos de voz invertida. Uma outra versão, com instrumentos adicionais, está presente no álbum “Yoni”, lançado pelo Sê-lo! Netlabel em 2018. Por Lori Yonï (Leandra Lambert)

Equipamentos utilizados: Microfone de contato, AKG D5, Zoom Hn4, Logic.

Ficha Técnica|Vozes, gravação, edição, mixagem: Leandra Lambert

Deformação da Literatura Brasileira (Vinícius Fernandes)

Deformação da literatura brasileira foi composta estabelecendo um princípio de operação preciso e simples. Toda palavra do áudio de uma entrevista do crítico literário Antônio Cândido foi removida, restando apenas o resíduo sonoro de tal fonograma, constituído, basicamente, de grunhidos do entrevistado (ou quando buscava alguma palavra que não encontrava, ou quando respirava, tossia e ria) e ruídos decorrentes de especifidades materiais do próprio meio de gravação da entrevista. Deformação foi apresentada na performance anti-bandeirantismo-descolonizador A espírita do ocidente realizada na UNIFESP na ocasião de um evento acadêmico de celebração da obra de Cândido. Este áudio acompanhou um vídeo de um microscópio escaneando colônias de bactéria Candida albicans, causadora da candídiase. Por Vinícius Fernandes

Softwares utilizados para criação: Audacity

Ficha Técnica | Voz: Antônio Cândido | Edição e mixagem: Vinícius Fernandes

Esvaziar (Daniele Costa)

Me encho de ar e solto em um assovio, me encho de ar e solto como um balão que estoura, me encho de ar e vibro um som qualquer. Esvaziar pra mim é uma forma de aliviar tensões. Respiro fundo e solto. Nesse experimento, solto o ar flexionando meus lábios de três formas diferentes: contraio de forma a criar um bico e solto o ar, contraio os lábios para dentro e solto com força, relaxo meus lábios e deixo um som sair. Certo momento o cachorro passa pela sala e respira junto comigo. As vezes falha, as vezes harmoniza, as vezes é só ar. Na edição os sons vão se repetindo e em alguns trechos leva efeitos de eco. Por Daniele Costa

Utilizado para a criação sonora: Um fone de ouvido, o aplicativo Voice Recorder no Celular Motorola g7. E para a edição do áudio, o software (Audacity).

Ficha Técnica | Edição de áudio e voz: Daniele Costa

Gritonia (Joanne Labixa)

GRITOS! BARULHO! JOANNE LABIXA É CAÓTICA! Em meio à processos diversos que nunca chegavam à nada, dentre eles uma sinfonia sintetizada de vozes múltiplas e uma confusão de tons em apito, Marina Mapurunga sugeriu que eu usasse sons da Websérie “Joanne Labixa Enigmática” e, daí, surgiu a inspiração prima do produto final que estão ouvindo agora! De todo caos e bagunça, surgiu, esta ‘canção’ experimental extremamente “Camp”, tão ultrajante quanto a que a compõe e produz. Camp, Caótica, Bagunçada, Barulhenta, Enigmática. Joanne Labixa é o barulho e o caos!

O conceito primário é retratar a bagunça que existe dentro da minha cabeça. A musica é fragmentada, justamente par representar o fluxo de ideias que para e reinicia renovado instantaneamente no meio do processo criativo, com várias camadas, que representam essas diferentes ideias. A ideia era fazer algo que, ao mesmo tempo, fosse descontraído e divertido, mas que não perdesse o experimentalismo e humor escrachado. Por Joanne Labixa

Gravado em um Samsung Galaxy A3, utilizando o App ‘MasterREC’. Produzida utilizando FL Studio 12 (Fruity Loops)

Ficha Técnica| Vozes: Joanne Labixa e Passará Roxanol Menina Garota Mulher.| Gravação, Edição e mixagem : Joanne Labixa

i am sorry mr scelsi [versão drops] (Jalala Amani)

Fabricar monstrosidades com a respiração. i am sorry mr scelsi é um exercício vocal sobre ciclos compostos de produção, liberação e vocalização de sensações. O uso paródico do nome do compositor microtonal precursor da música espectral europeia se motiva na chave da aparente economia compacta de proposição. Além disso, o nome traz referência a um certo caráter meditativo, que rapidamente, em ato, anuncia linhas irredutíveis de dramaticidade e outros compromissos aquém e além da meditação. i am sorry é performance acerca de sensação, mas não no sentido conceitual, e sim no sentido operador-específico. A chave deste pequeno improviso, improvivo (em especial desta versão drops, pelo caráter sintético proposto pela curadoria) é a ambiguidade da noção de ar, concentrando-se, portanto, no contexto da respiração. Tento então habitar uma dramaturgia que leve em conta esse enigma – se o tomarmos como tal – deonde emergem outros enigmas. A voz passeia por zonas dramatúrgicas, portanto, que são os modos indagativos de uma vocalização em aberto.

Os dispositivos e estados germinais da ação em questão acenam desde performances como song of bones (2014), transfiguração pitagórica (2014), e uma das partes da performance invocação para cordaria (2015), que se deu em parceria com Felipe Merker Castellani. Desde então já acenava a necessidade de se configurar uma ação elaborada somente com as derivações do corpo enquanto ‘calor, textura, espessura, caminhos-escapes etc do o ar que se respira [o quê é isso, ar, respirar?]’ (anotação constante em diário de trabalho). Derivações, melhor dito, secreções que sinalizassem as imagens afetivas-instintivas e estados avassaladores de conversão que atravessam o corpo do atravessamento. Também germinava desde 2015 a possibilidade concreta de se construir uma espécie de ‘microfonia da própria voz’ – grosso modo. Nesta última perspectiva que se insinua, tento flagrar os parentescos e as associações espontâneas e indeléveis da vocalização em aberto com deformações e filtragens que reconhecemos do ambiente elétrico. Germinação de membranas do corpo, membranas do ruído, membranas da técnica no seu aspecto mais periclitante, membranas da voz da pessoa enquanto compósito e flagrante… Se algo vibra, há já membrana.

Esta versão drops é apanhado sintético de uma pequena série de compósitos de sensação, principalmente nas chaves de timbre, textura, ciclos da sensação e seu improvável processo de construção de gestos e associações espectrais – digo isso na falta de palavras melhores. É um processo que se dá no corpo. Uma referência incontornável na construção desta variação drops, e da ação como um todo, é o disco lost rivers(1992) da artista tuvan Sainkho Namtchylak, álbum bem pouco contemplado na discografia da performance vocal e na própria discografia da performer. Por Jalala Amani (Francisco Lauridsen Ribeiro)

Equipamento utilizado: gravador Tascam DR100; microfone dinâmico Sennheiser E835.

Ficha Técnica | Voz: Francisco L. Ribeiro (Jalala) | Gravação e suporte técnico: Marina Mapurunga.

Obturação (Júlia Teles)

Obturação é uma peça improvisada de experimentação vocal. Improvisei de forma livre, gravei diversas camadas e editei. Preferi não processar o som com efeitos e equalização, para manter a sonoridade específica do microfone utilizado e do espaço em que captei.

Explorar a expressão vocal (para além do texto) é algo novo na minha prática artística. Talvez por conta disso, emitindo e experimentando sons, tenho a impressão de que os mesmos não me pertencem. Não me sinto responsável e nem autora dos sons que saem de mim. Já havia criado peças fragmentando o som de um texto falado, pegando só o trecho de uma ou outra consoante ou vogal. Mas Obturação é a primeira peça em que exploro essa sonoridade mais abstrata na própria gravação/emissão sonora, e é a primeira inteiramente vocal.

Sei que a minha voz não é técnica, não é virtuosa, mas sendo parte da minha expressão e do que eu sou, ela está presente na obra tal qual é. Obturar é preencher ou tampar um buraco. Por Júlia Teles

Equipamento/softwares/materiais utilizados para a criação: Microfone Shure SM-58, placa de som, computador (Pro tools).

Ficha técnica | Voz, gravação, edição e mixagem: Julia Teles

Wounds older than (Dani Sou)

Wounds Older Than Us nasce da ideia de que o mundo surge e se desenvolve através de constantes feridas, fissuras, rupturas e cicatrizes. Essas fissuras, na Terra e em seus corpos animados ou inanimados revelam possibilidades sonoras envolvendo frequências, vibrações, ressonâncias, timbres e respirações. A estrutura da composição parte dos seguintes momentos: 1- O centro da Terra é escuro e rugoso – sons graves, guturais; 2- A superfície da Terra e seus abismos; 3- Vôos: respirações e 4- Hiperagudos e ressonâncias produzidas pelos sons com boca fechada. Por Dani Sou

O processo envolveu gravações com o celular Asus Zenphone 4 mixadas no Adobe Audition. Equipamentos: Gravador Asus Zenphone 4. Programa de edição de som: Adobe Audition.

Ficha Técnica | Vozes, gravação, edição e mixagem: Dani Sou

Desvendo (Guache)

A sonoridade se dá a partir de uma ambiência de natureza física proposta por vozes captadas por microfones acoplados a tubos de PVC. Explorando o eco e a ressonância, física e eletronicamente, se estabelece uma camada densa em movimento aonde as notas da melodia se apoiam umas nas outras. A pulsação rítmica é composta por quatro camadas de sons guturais, entre notas graves e médias, resultando numa perceptível polirritmia que flui como as sobreposições dos sons casuais. A métrica e a melodia propostas na fala evocam expressão, mesmo sem um discurso verbal, apenas sugestionando drama. Nesse processo, percebemos que nos dirigimos a uma forma primitiva de expressão que conecta a nossa condição de animal, aonde a percepção e o envolvimento na relação contexto/ sujeito é decisiva para a construção, entendimento e comunicação do discurso. Por Guache

Equipamento/softwares/materiais utilizados para a criação: As vozes foram captadas por microfones acoplados a tubos de PVC, ligados a unidades de efeito de distorção, delay, reverberação e freeze (unidade de efeito que captura e torna loop um micro fragmento de áudio). Gravado e mixado no computador com Pro Tools. Foram usados plugins de equalização, compressão, pitch shifter e auto-pan.

Ficha Técnica | Gil Fortes – voz, gravação, edição e mixagem | Luciana Melo – voz

Carteadas [binaural] (Sonora – músicas e feminismos)

Carteadas é uma criação coletiva da equipe organizadora das atividades de 2019 da rede “Sonora – músicas e feminismos”. Parte de uma atividade lúdica realizada sobre cartas de Tarô (Marselha), com roteiro e direção pensados pelo grupo. Para uma melhor escuta e imersão neste trabalho, indicamos ouví-lo com fones de ouvido, pois foi captado com microfone binaural.

O baralho de Marselha utilizado foi a variação criada por Emil Aminollah Kazanlár, por conta de problemas étnicos e fraturas sociais, relativos ao tarô de marselha, que este carteado em especial suscita. O suporte para as práticas-narrativas do oráculo esteve sob a responsabilidade do Chico (Francisco Lauridsen – Jalala Amani), integrante da Sonora. A proposta inicial foi de Marina Mapurunga, integrante da Sonora.

Mais de uma semana antes da gravação – realizada no estúdio  do Departamento de Música da ECA-USP (sala do NuSom) – foi feita uma leitura do Tarô visando atribuir a cada participante do projeto duas cartas inspiradoras para sua performance. Uma das cartas era um Arcano Maior e a outra um Arcano Menor Eis o jogo: a dimensão dos arcanos maiores era relativa e um campo pessoal, ‘indicador’, em que cada pessoa deveria se impregnar e estudar aquele Arcano, durante os dias de preparação. A dimensão dos arcanos menores era relativa à concretude da sua ação sonora sem palavra, como um ‘disparador’.

De posse desse material, cada membro(a) da Sonora estabeleceu algum tipo de contato com imagens afetivas-instintivas para sua criação sonora/vocal. Cada pessoa pôde, por exemplo, construir sua personagem, ainda que os problemas não precisassem ser postos nesses termos. O Tarô também definiu a ordem em que cada pessoa protagonizaria na performance coletiva, embora todos(as) se mantivessem “sonorizando” durante os quase 6 minutos de gravação. Assim se organizou um tecido intenso de vocalização coletiva: ambiente autônomo e no entanto catalisado e localizado continuamente pelos protagonismos.
Foi utilizado um microfone Binaural, que tem a capacidade de aproximar a captação a variáveis próprias a uma certa escuta particularmente humana, com suas sutilezas. O grupo se empenhou em usar o espaço de forma a potencializar e tirar proveito das possibilidades do equipamento. Foram realizadas improvisações com diferentes timbres, alturas, intensidades, intenções, deslocamentos e distâncias. Deste modo, cada participante viveu relações com as figuras, texturas emocionais e lugares existenciais das cartas do Tarô.

Foram realizadas três tomadas para chegar ao resultado final de Carteadas. As duas primeiras tomadas foram encaradas como exercícios para a performance final. A última tomada foi aproveitada praticamente toda, sem precisar de edição final.

Carteadas proporcionou ao grupo criador uma dinâmica lúdica, mística e terapêutica, que aproximou as pessoas integrantes, motivando-as a dar sequência ao projeto em outras performances coletivas. Por Sonora- músicas e feminismos.

Equipamento: microfone binaural para a gravação.

Ficha Técnica | Vozes: Lílian Campesato, Eliana Monteiro da Silva, Dani Sou, Francisco Lauridsen (Jalala Amani), Carolina Andrade Oliveira, Flora Camargo Gurfinkel, Tide Borges e Marina Mapurunga. | Gravação: Pedro Paulo


créditos

Faixas:

Inboca por Inés Terra;
Garganta [solovox] por Lori Yonï;
Deformação da Literatura Brasileira por Vinícius Fernandes;
Esvaziar por Daniele Costa;
Gritonia por Joanne Labixa;
i am sorry mr scelsi [versão drops] por Jalala Amani;
Obturação por Julia Teles;
Wounds older than us por Dani Sou;
Desvendo por Guache;
Carteadas [binaural] por Sonora – músicas e feminismos.

 

Produção e Curadoria: Marina Mapurunga.
Masterização: Vicente Reis.
Lançamento  em Cachoeira-BA: Gabriel Ferraz, João Paulo Guimarães, Lígia Franco, Luiz Otávio, Stephanie Sobral; Daniele Costa, Felipe Borges, Marina Mapurunga.